quarta-feira, 25 de Agosto de 2010
Filosofia x mitos
O nascimento da Filosofia: do Mito ao logos
A Filosofia nasce por volta do século IV a.C., nos territórios que constituiriam posteriormente a Grécia antiga: Mileto, Agrigento, Éfeso e outros. Representa, a rigor, a passagem do pensamento mítico para o pensamento racional, procurando desenvolver o s (saber racional) em contraste com o s (saber alegórico).
A característica principal da consciência mítica é a aceitação do destino, inquestionável. As ações humanas são apresentadas como determinadas pelos deuses, e os atos humanos não são considerados livres a autônomos: consequentemente não são de responsabilidade humana. Na Grécia, a consciência mítica era a predominante no período anterior à escrita. Os mitos eram transmitidos oralmente por aedos (aedos) e rapsodos (rapsodos), poetas que contavam e cantavam a origem dos deuses (teogonia), do mundo (cosmogonia) e as glórias dos heróis. Eram poesias, estórias de produção anônima e coletiva. Os mitos pertencem, assim, ao mundo da imaginação, do surreal, do suprarreal. Na Grécia, esses mitos eram expressos nas epopeias, sendo que a Ilíada (grego: Ilion e a Odisseia (de Odisseus – Odisseus, nome grego de Ulisses). Essas epopeias tinham caráter pedagógico, na medida em que narravam a história grega (período micênico), relatavam os atos dos deuses e dos heróis do passado e com isso transmitiam os valores cultuais, expressando uma concepção de vida. Nas epopeias os deuses interferem constantemente na vida humana, seja auxiliando os protegidos seja perseguindo os inimigos. O destino dos indivíduos é dado, inquestionável, não pode ser alterado pois foi escrito pelos deuses. Como vemos na passagem abaixo, em que Atenas fala a Ulisses:
Eu sou a divindade que te guarda sem cessar, em todos os trabalhos
E o troiano Heitor expressa a mesma confiança no destino:
Ninguém me lançará ao Hades contra as ordens do destino! Garanto-te que nunca homem algum, bom ou mau, escapou ao seu destino, desde que nasceu.
O herói mítico vive na dependência dos deuses e do destino, não tem liberdade. Seus atos são dirigidos pelos deuses. Ainda assim, é idealizado por seu comportamento e suas virtudes como coragem e força excepcionais no campo de batalha: ele é sobre-humano. Seus feitos não pertencem ao mundo natural, sua força é descomunal, sobre-humana pois dada pelos deuses. Ele é o escolhido dos deuses, a encarnação da virtude.
A mensagem é clara: a ordem estabelecida não pode ser mudada, é estática pois tudo é determinado pelo destino e pelos deuses. Cada coisa, cada pessoa tem seu lugar no mundo ordenado pelos deuses e o destino, e aos rapsodos e aedos cabe narrar como ocorreu esse ordenamento e qual é, para que cada indivíduo possa constantemente se lembrar dessa verdade inquestionável. Assim é o discursos mítico: inquestionável, mágico, supra-real, poético, representa um refúgio da realidade crua, uma explicação ainda que absurda, a tranquilização da consciência, um exemplo a ser seguido, a encarnação do Bem e do Mal claramente definidos.
Em todas as literaturas, a prosa é posterior ao verso, como a reflexão o é à imaginação. A grega não faz excepção à regra, pois o desnível cronológico entre ambas deve importar em uns dois séculos. Assim, onde a prosa suplante a poesia, o regresso ao verso é um suave toldar da razão: se, de um lado, o esforço de comunicar, se o verso pretende, ao menos, ser inteligível, é racional, do outro, o mergulho no fundo do que se é - pois a imaginação radica no íntimo de cada um - para dar à luz o verso, traz consigo a inevitabilidade de nublar a razão, de a intelecção só surgir com um tacto que a razão, ainda querendo, não oferece. PEREIRA, 2006, p. 262
O período de passagem do pensamento mítico ao pensamento racional é um momento em que a consciência crítica ainda não está desenvolvida, mas já existe questionamento sobre a origem das ações humanas, determinismo, liberdade e responsabilidade. Esse período apresenta o que é chamado de consciência trágica, em que o mito não foi ainda totalmente superado e a consciência filosófica ainda não se firmou. Típicas desses período são as tragédias gregas de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Édipo-Rei, de Sófocles, é um exemplo: suas personagens são apresentadas humanizadas, e questionam o seu destino – apesar de nada poderem fazer para evitá-lo. Todo tempo há um embate, em que o sujeito se recusa sucumbir ao destino traçado pelos deuses e tenta exercer sua liberdade mas não consegue. O destino vence, entretanto Édipo,o personagem central, não é passivo: ao cegar-se, no final da tragédia, diz:
É a afirmação da liberdade e da responsabilidade humana sobre a história, a passagem do mundo dos mitos ao mundo da razão (logos).
A palavra logos (grego: s)sintetiza vários significados que, no português, são separados: palavra, o que se diz, assunto da discussão, pensar, inteligência, razão, faculdade de raciocinar, fundamento, causa, princípio, motivo, razão de alguma coisa, argumento, exercício da razão, juízo ou julgamento, bom senso, explicação, razão íntima de alguma coisa, justificativa, analogia. Basicamente, seus principais sentidos podem ser resumidos em: linguagem, pensamento ou razão, norma ou regra, fundamento de alguma coisa.
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Mito (grego: s) |
Logos (grego: s) |
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Discurso narrativo de caráter inquestionado e inquestionável, que oferece explicação sobre a origem e funcionamento do mundo e da sociedade, com o objetivo de manter a coesão social e o status de uma sociedade. Pode ter caráter religioso, como é o caso dos mitos gregos antigos. O mito é uma forma de compreensão da realidade cuja função é acomodar e tranquilizar o homem diante do desconhecido. A adesão ao mito se dá pela aceitação cega, pela fé, pela crença. Nas sociedades organizadas o indivíduo deve se adaptar sem críticas às normas da tradição mítica. A consciência mítica é ingênua, desprovida de problematização: é a aceitação cega dos mitos e dos rituais que eles impõem. |
Discurso racional, de caráter crítico e investigativo, que busca explicações sobre a origem e funcionamento do mundo e da sociedade. É uma forma de questionamento e de busca de compreensão da realidade através do questionamento, e busca o convencimento pela argumentação lógica ao invés da aceitação. O s é verdadeiro quando se identifica com o justo e com a lógica (portanto, sua verdade deve ser demonstrada e sujeita ao julgamento dos demais), não por imposição. O saber racional caracteriza-se pela criticidade, problematização, questionamento, busca das razões últimas de algo. |
Se nos mitos antigos o destino era dado pelos deuses, e, portanto inquestionável, com o exercício da razão (logos) os homens assumem o seu destino, tornam-se sujeitos históricos a partir do momento em que questionam a organização da realidade e da sociedade. A Filosofia representa um esforço racional que busca compreender o mundo e orientar a ação.
REFERÊNCIAS:
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2003.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: história e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2000, 15ª. ed. rev. e amp.
MÁTTAR Neto, João Augusto. Filosofia e Administração. São Paulo: Makron Books, 1997
PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Estudos de História da Cultura Clássica, I Volume - Cultura Grega, 10ª ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2006
